segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sistema monitora floresta alagada no Amazonas


Sistema automático de monitoramento aquático, construído pelo Inpe, é o primeiro a ser instalado em região de florestas alagadas da Amazônia. Equipamento, na Reserva Mamirauá, auxiliará estratégias de conservação

Monitoramento é feito via satélite e colaborará com projetos de conservação

Pela primeira vez, um sistema de monitoramento que integra estratégias de conservação do meio ambiente amazônico é instalado em uma região inteiramente composta por florestas alagadas. Com o nome de Sistema Automático de Monitoramento Aquático (Sima), desde junho esse equipamento está operando em uma plataforma flutuante no Lago Mamirauá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas (AM).

O Sima já começou a coletar dados que permitirão respostas a diversas questões de pesquisas em andamento, dentre as quais a que estuda o padrão de distribuição espacial da abundância do pirarucu (Arapaima gigas) nos lagos da Reserva Mamirauá.

Peixe de alto valor comercial, o pirarucu só pode ser pescado em áreas de manejo – caso de Mamirauá – e de cativeiro. Em qualquer outra situação, sua pesca é proibida. O objetivo do estudo é entender como variáveis ambientais, dentre elas os pulsos de inundação e seu impacto sobre as propriedades da água, afetam essa espécie. As informações adquiridas a partir daí contribuirão com as estratégias de manejo desse peixe.

Além de atender as pesquisas, o Sima também permitirá comparar informações de Mamirauá, área praticamente sem impactos humanos e com regras de manejo, com as coletadas no Lago Grande de Curuaí, onde já existe um sistema desse tipo. Esse lago também fica no Amazonas e se localiza em uma região bastante degradada e antropizada.

“O Sima permite, teoricamente, que se separe o sinal das forças naturais sobre o ambiente aquático daquele produzido pelas ações antrópicas. Assim essa comparação dará respostas úteis sobre a resiliência desses dois tipos de ambientes”, explica a pesquisadora Evlyn Márcia Leão de Moraes Novo, da Divisão de Sensoriamento Remoto da Coordenação de Observação da Terra do Inpe.

O Sima mede diversas variáveis ambientais a partir de sensores colocados acima da linha de água, entre elas direção e intensidade de ventos, radiação solar incidente e refletida e temperatura do ar. Já abaixo da linha d´água, ele mede variáveis como turbidez e pH. Esses dados são adquiridos em alta freqüência e transmitidos, em média a cada hora, por satélites brasileiros.

“Entender como as propriedades físico-químicas da água se modificam ao longo do tempo, com que freqüência, como são afetadas pelas variáveis climáticas, pode vir a ajudar a melhorar as estratégias de manejo dos recursos não apenas na Reserva, mas também em outros locais”, explica Evlyn.

A iniciativa de instalação do Sima é do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), organização cogestora da Reserva Mamirauá, e do Inpe, duas das seis organizações que integram a Rede Geoma, do Ministério da Ciência e Tecnologia. O principal objetivo dessa rede é o desenvolvimento de modelos que avaliem e prevejam cenários de sustentabilidade na Amazônia e que contribuam para a formulação de políticas públicas.

O Sima instalado em Mamirauá foi construído no Inpe, sob a gerência de José Luiz Stech, pesquisador que integrou a equipe de desenvolvimento de um sistema parecido que opera em oceanos e que também atua na Divisão de Sensoriamento Remoto da organização.

O sistema foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Também recebeu apoio da Rede Geoma e recursos da Coordenação de Observação da Terra do Inpe e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O transporte do equipamento para Mamirauá foi apoiado pelo Comando Geral do Ar (Comgar) e pelo Exército Brasileiro.

(Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE)

Novo sistema de vigilância por satélite para monitorar exploração na Amazônia

Novo sistema de vigilância por satélite vai rastrear áreas de desflorestamento da região da Amazônia e também de outras matas do país. O desenvolvimento tecnológico do aparelho está sendo concluído e a previsão de lançamento é para a segunda quinzena de agosto.

Com o objetivo de monitorar áreas florestais concedidas legalmente para a exploração, o Detex (Detectação de Exploração Seletiva), como ficou chamado o satélite, vai trabalhar fiscalizando se os madeireiros estão atuando conforme as regras de manejo determinadas pelas autoridades competentes.

O sistema foi criado para mapear o estado de conservação das matas brasileiras. O Detex vai indicar, de forma detalhada, os lugares do país onde são praticadas a extração da madeira. Atualmente é possível obter informações apenas das maiores regiões do Brasil.

O sistema vai gerar dados precisos sobre as atividades. Em outra etapa será mostrado pelo Detex, de forma qualitativa, a intensidade do corte seletivo, para que se saiba se as áreas exploradas têm autorização para atuar e se estão fazendo isso da forma correta.

Para fazer um trabalho com resultados positivos é preciso aliar tecnologia com controle e fiscalização. Somente assim se pode impedir que novas áreas de florestas sejam derrubadas. Tão importante quanto reconhecer as áreas que sofreram desmatamento ilegal, é proteger as florestas que ainda estão em pé.

(Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O desafio de mapear a Amazônia

A Amazônia Legal possui uma área total de 5,2 milhões de quilômetros quadrados, dos quais cerca de 1,8 milhão não possui informações cartográficas terrestres do relevo compatíveis com escalas maiores que 1:250.000. Essa área, denominada de "vazio cartográfico", pode ser dividida em 1,5 milhão de quilômetros quadrados que correspondem à área de floresta e 300 mil à área de não-floresta.

A constante presença de grande quantidade de nuvens na região, a alta densidade da vegetação, as dificuldades logísticas e os perigos naturais da selva são os fatores responsáveis por tornar o mapeamento da Amazônia o maior desafio nacional para os profissionais da área.

Mesmo com o uso das mais diversas e modernas tecnologias dos sistemas sensores ópticos orbitais e aerotransportados, essa floresta, grandiosa em sua beleza e extensão, cria obstáculos quase que intransponíveis às atividades de cartografia e topografia.

Inserido nesse contexto, de vencer desafios e garantir informações terrestres necessárias à soberania nacional, encontra-se o Serviço Geográfico do Exército Brasileiro, executando o Subprojeto Cartografia Terrestre do Projeto Implantação do Sistema de Cartografia da Amazônia.

Tal projeto é o resultado de vários anos de articulação, do qual participam também o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), a Marinha, a Força Aérea Brasileira e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), por meio de um Acordo de Cooperação Técnica assinado em 26 de fevereiro de 2008 e com vigência de cinco anos.

Foram estabelecidas as atividades con-juntas dos partícipes, na consecução do projeto denominado, cujos resultados es-perados são a geração de produtos cartográficos (planialtimétricos) e geoinformações com precisão compatível com as escalas de 1:50.000 e menores, a geração de cartas geológicas nas escalas 1:100.000 e 1:250.000 e a atualização da cartografia náutica na escala 1:100.000 das principais hidrovias da região amazônica.

O Projeto Cartografia da Amazônia é composto de três subprojetos: a Cartografia Terrestre, sob a responsabilidade da Diretoria de Serviço Geográfico (DSG) com apoio da Força Aérea Brasileira (FAB); a Cartografia Geológica, sob a responsabilidade do Serviço Geológico do Brasil; e a Cartografia Náutica, sob a responsabilidade da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha (DHN).
O projeto tem dimensão estratégica e sua realização permitirá o aprofundamento do conhecimento sobre a Amazônia Brasileira, bem como o suporte a projetos de infraestrutura a serem implantados na região. Além do desenvolvimento regional, o projeto prevê a geração de informações para monitoramento, segurança e defesa nacionais, com especial ênfase nas áreas de fronteira. Serão gerados também modelos numéricos de elevação e informações detalhadas sobre a estratificação vegetal, em abrangência ainda não realizada na Amazônia Brasileira, que projetará positivamente o Brasil quanto ao conhecimento daquela região.

A solução tecnológica para superar a dificuldade relacionada à constante presença de nuvens na Região Amazônica é o emprego de Radares de Abertura Sintética (SAR). As áreas de floresta serão imageadas com sistemas sensores SAR interferométricos (InSAR) nas bandas P e X, possibilitando, desta forma, o mapeamento planialtimétrico no nível do solo e da copa das árvores. O serviço de aerolevantamento InSAR está sendo realizado pela empresa Orbisat da Amazônia Indústria e Aerolevantamento. As áreas de não-floresta, que compreendem as áreas desmatadas, áreas de cultivo agrícola, áreas de pecuária, etc., localizadas onde avança o arco do desflorestamento, serão imageadas com o uso dos radares interferométricos, nas bandas L e X, das aeronaves R99-B do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam).

A quantidade de dados produzidos é imensa. Todas as unidades de discos rígidos provenientes dos dados do aerolevantamento são remetidas para o Centro de Imagens e Informações Geográficas do Exército (CIGEx), em Brasília, onde são processados para a geração das imagens e dados vetoriais, de acordo com a Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais (Inde).

Um requisito para o processamento é a implantação de refletores, denominados corners reflectors, que serão empregados na sinalização do aerolevantamento SAR. Tais refletores são implantados no campo e medidos por meio de GPS pelos militares da 4ª Divisão de Levantamento do Exército (4ª DL), sediada em Manaus. A seleção dos pontos de instalação tem uma metodologia que leva em conta a largura das faixas de voo, as precisões desejadas, o limite operacional da tripulação e da aeronave, a acessibilidade e o requisito de preservar o ambiente, sem cortar uma única árvore.

Apoio em campo

A região é totalmente inóspita e todos os deslocamentos de pessoal e o transporte de suprimentos, combustível, equipamentos e outros materiais são muito difíceis.

As equipes de campo são compostas por topógrafos e outros militares, gerenciadas por oficiais engenheiros cartógrafos. A preparação das equipes de campo envolve, além da capacitação técnica na área radar e posicionamento GPS, uma extensa programação de cursos e estágios para operação em condições tão extremas, como o conhecimento de noções básicas de sobrevivência na selva, primeiros socorros, resgate aquático, condução de embarcações, dentre outros. Esse pessoal é destacado em bases pré-estabelecidas nas cidades próximas às áreas de trabalho. A partir daí, pequenas equipes, geralmente com quatro homens, seguem para o meio da floresta por meio fluvial ou aéreo. Os deslocamentos até os locais, nos quais serão feitos os rastreios GPS e colocados os refletores, podem chegar a mais de mil quilômetros e levar vários dias de voadeira (lancha regional). Ressalta-se que são transportados também notebooks, geradores, aparelhos de comunicação, combustível, gêneros alimentícios, material para sobrevivência e resgate, além do equipamento individual e do armamento necessário, dadas as peculiaridades da região.

Essas equipes ficam acampadas na selva por uma semana, até que a aeronave realize o vôo radar previsto para aquela área, quando então podem retrair para a base ou prosseguir para outro ponto.

Juntamente com as equipes são mobilizadas viaturas leves, caminhão e caminhão tanque com combustível de aviação para a aeronave radar, bem como inúmeros outros equipamentos. Tudo isso é feito por balsas que, a 12 quilômetros por hora, levam dias para transportar o material até o destino.

Em face da obediência às legislações ambientais, é proibida a abertura de clareiras. Como há necessidade do uso de GPS de precisão e implantação dos refletores, que devem ser visualizados pelo radar, as equipes têm que procurar na selva locais que possibilitem o rastreio e a montagem dos corners reflectors. Desta forma, alguns pontos são feitos sobre pedras existentes nos leitos dos rios ou em cima de plataformas montadas na hora pelo pessoal.

Vale lembrar que o local de trabalho possui animais selvagens, diversas doenças tropicais, corredeiras e grande incidência de chuvas fortes.

Esse projeto é, sem dúvidas, um marco na história da cartografia nacional, não apenas pelos produtos cartográficos gerados e dificuldades na sua execução, mas principalmente por se tratar do mapeamento de uma região de extrema importância no contexto internacional e quase que desconhecida do ponto de vista cartográfico.

Gen Pedro Ronalt Vieira - Diretor do Serviço Geográfico do Exército; Maj Antonio Henrique Correia - Chefe da Seção Técnica da Diretoria do Serviço Geográfico do Exército; Cap Rogério Ricardo Silva - Chefe da Equipe de Levantamento da 4ª Divisão de Levantamento.

(Disponível em: http://www.mundogeo.com.br/)